Deus endureceu os corações dos judeus para que rejeitassem a Cristo? Ele endureceu o coração de Faraó? Deus odiou Esaú? E quanto à ideia de que Ele escolhe alguns para a salvação eterna e outros para a danação perpétua?
Essas perguntas frequentemente suscitam debates intensos, especialmente quando nos deparamos com o capítulo 9 de Romanos, que muitos teólogos entendem que trata de temas como livre-arbítrio, livre agência, eleição e predestinação.
Este artigo busca explorar, inicialmente, a questão da rejeição parcial de Israel, investigando o que significa terem sido “endurecidos”. Também será analisada a dinâmica de emulação que Deus estabeleceu entre judeus e gentios, conforme descrito em Romanos 10:19 e 11:11.
À primeira vista, pode parecer que Deus rejeitou Israel e endureceu os seus corações. Contudo, as Escrituras mostram uma realidade diferente. Por intermédio do profeta Isaías, Deus declara que continuamente estendeu Suas mãos ao povo de Israel, mesmo sendo este um povo rebelde, que insistia em seguir caminhos maus, orientados por seus próprios pensamentos (Isaías 65:2).
Israel buscava conselhos, mas não os conselhos do Senhor, motivo pelo qual foram chamados de filhos rebeldes. Em vez de se cobrirem com a palavra do Senhor, que é capaz de produzir justiça, recorriam a uma “cobertura” inútil (Isaías 30:1). Essa cobertura consistia em mandamentos de homens, que por tradição receberam de seus pais. Assim, honravam a Deus apenas com palavras, enquanto seus corações permaneciam distantes (Isaías 29:13). Exteriormente, aparentavam buscar os caminhos do Senhor e ter prazer neles, como se fossem um povo que praticava justiça, mas, na verdade, não passavam de transgressores (Isaías 58:1-2).
Séculos depois da entrega da Lei, o salmista ainda conclamava os filhos de Israel a ouvirem a palavra de Deus e a não endurecerem os corações, como ocorreu com seus antepassados no deserto. Deus diagnosticou o povo de Israel com clareza:
“É um povo que erra de coração e não conhece os meus caminhos.” (Salmo 95:10).
Ezequiel também registra a atitude do povo:
“Eles vêm a ti como o povo costuma vir, assentam-se diante de ti e ouvem as tuas palavras, mas não as põem em prática. Com a boca lisonjeiam, mas seus corações seguem a avareza.” (Ezequiel 33:31).
Diante dessas passagens, podemos afirmar que Deus endureceu os corações de Israel? A resposta é um enfático “não”! Esses textos são claros ao demonstrar que o povo de Israel, desde os seus antepassados que foram libertos do Egito, já apresentava um coração obstinado e inclinado a desviar-se dos mandamentos de Deus. Como o profeta Oséias bem resume:
“O meu povo é inclinado a desviar-se de mim; ainda que clamem ao Altíssimo, nenhum deles o exalta.” (Oséias 11:7).
Esses exemplos mostram que o endurecimento não foi obra arbitrária de Deus, mas consequência da rebeldia contínua do coração humano que rejeita a voz divina.
Desde o último cântico de Moisés, fica evidente que os filhos de Israel se corromperam contra Deus, tornando-se uma geração perversa e mentirosa. Moisés declara que, por causa de sua rebeldia, eles deixaram de ser considerados filhos de Deus, tornando-se uma “mancha” em Sua presença (Deuteronômio 32:5).
Mas qual foi a consequência dessa contínua rebeldia? Desde o momento em que Deus libertou o povo do Egito e os conduziu através do Mar Vermelho, todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar. O Verbo, que mais tarde se faria carne, estava com eles e os seguia, demonstrando o cuidado e a fidelidade divina (1 Coríntios 10:1-4).
Contudo, Deus provou a fé do povo, assim como havia provado Abraão. Mas ao contrário de Abraão, Israel foi reprovado. Diante da murmuração e incredulidade, Deus lhes propôs uma prova simples: confiar que Deus provia diariamente o maná. Mesmo assim, não obedeceram e, novamente, falharam (Êxodo 16:4). Apesar dos inúmeros milagres e do cuidado visível de Deus, o povo continuou incrédulo e obstinado em sua desobediência. À medida que as transgressões se acumulavam, Deus estabeleceu o sábado como estatuto e sinal em Israel, chamando-os à santidade e à obediência (Êxodo 16:23-30).
Em outro momento crucial, Deus Se propôs a falar diretamente com Moisés, para que o povo de Israel ouvisse Sua voz e pudesse crer. No entanto, tomados pelo medo ao verem os trovões, relâmpagos, o som das trombetas e o monte fumegando, rejeitaram ouvir a voz do Senhor. Esse era o Deus que cumpria a palavra dada a Abraão, mas o povo preferiu permanecer em sua incredulidade, incapaz de confiar em Seu cuidado e fidelidade (Êxodo 19:9; 20:18-20).
Por causa das transgressões, Deus deu a Lei, um sistema de mandamentos e preceitos, “até que viesse a posteridade prometida” — Cristo — como Paulo ensina em Gálatas 3:19. Isaías descreve o efeito desse sistema legalista sobre Israel:
“Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, caiam para trás, e se quebrantem, e se enlacem, e sejam presos.” (Isaías 28:13).
Israel havia se tornado uma geração perversa e desleal. Em resposta, o Senhor que os acompanhava declarou que esconderia Seu rosto, aguardando para ver o fim de um povo tão obstinado (Deuteronômio 31:18; 32:20). Mais tarde, o profeta Isaías ainda esperava pelo Senhor que havia ocultado o Seu rosto da casa de Israel:
“E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei.” (Isaías 8:17).
Esse Senhor, a quem Isaías aguardava, é chamado de Emanuel, “Deus conosco”. Ele deveria ser santificado como Senhor no coração de Seu povo (Isaías 8:8,13; 1 Pedro 3:15). No entanto, a profecia já anunciava que o próprio Senhor, que viria como um santuário, também seria “pedra de tropeço e rocha de escândalo” para as duas casas de Israel. Sua vinda serviria como prova e juízo, levando muitos a tropeçar, cair, serem quebrantados e presos (Isaías 8:14-15).
Assim, vemos que o endurecimento de Israel não foi uma obra arbitrária de Deus, mas uma consequência natural de sua incredulidade e rebeldia. Mesmo diante da fidelidade e do amor divino, o coração de Israel preferiu rejeitar a voz do Senhor, tropeçando na pedra que veio para ser a salvação de todos os que nEle creem.
Moisés desfrutava de um relacionamento singular com Deus. Ele falava com o Altíssimo face a face, sem enigmas, símiles ou parábolas, porque contemplava a semelhança do Senhor, que é Cristo (Números 12:8). Contudo, ao povo de Israel, Deus falava por meio de mediadores, como Moisés, ou por mensageiros, os profetas, que frequentemente usavam parábolas e adágios para denunciar a rebeldia da nação (Salmo 78:2).
Apesar desse privilégio, os sábios e líderes de Israel rejeitaram ouvir a palavra que Deus anunciava por meio de Moisés. O objetivo era prová-los, como fez com Abraão, para que confiassem na palavra do Senhor e, assim, não pecassem mais contra Ele (Êxodo 20:20). No entanto, ao rejeitar essa palavra, os “sábios” revelaram sua ignorância sobre o Santo:
“Os sábios são envergonhados, espantados e presos; eis que rejeitaram a palavra do SENHOR; que sabedoria, pois, têm eles?” (Jeremias 8:9).
Sem o conhecimento do Santo, o povo de Israel se prendeu aos mandamentos e preceitos que foram dados não para justificar, mas para expor sua condição de injustiça, obstinação e pecado (Romanos 10:2). Como Paulo descreve: os preceitos da Lei eram direcionados aos ímpios, profanos, pecadores e irreligiosos (1 Timóteo 1:9-10). Ainda assim, os israelitas se equivocaram ao acreditar que a obediência externa às obras da Lei poderia justificá-los, sem perceberem que um só tropeço em qualquer mandamento os tornava culpados de toda a Lei (Tiago 2:10-11). Além disso, como Isaías denuncia, seus mandamentos não passavam de preceitos humanos (Isaías 29:13).
Os profetas haviam anunciado por enigmas e parábolas o tempo da vinda do Messias. Quando esse tempo chegou, Jesus veio ao mundo, mas não conforme as expectativas do povo. Eles aguardavam a restauração do reino político de Israel, enquanto Cristo veio para edificar o templo espiritual prometido a Davi: a igreja do Deus vivo (2 Samuel 7:13).
O dia aguardado pelas sentinelas de Israel se tornou, para muitos, um dia de punição e confusão. Cristo veio cumprir a boa palavra prometida a Abraão, a bênção destinada a todas as famílias da terra, mas os filhos de Israel, apegados às questões religiosas e políticas, tornaram-se inimigos do irmão prometido — o Profeta semelhante a Moisés, de quem deveriam ter dado ouvidos (Deuteronômio 18:18).
Ao verem Jesus de Nazaré, filho de José e Maria, deveriam buscar nas Escrituras a confirmação de que Ele era o Cristo. No entanto, voltavam-se para amigos, líderes e familiares em busca de respostas, o que resultou em confusão e dissensão entre os filhos de Israel sobre sua identidade como o Messias, cumprindo o que foi predito em Miqueias 7:4-6.
O problema central era a forma como o Rei de Israel, o Filho de Davi e Filho do Altíssimo, veio ao mundo. Sua condição social humilde e Sua missão espiritual não se encaixavam nas expectativas carnais do povo. Cristo não veio para estabelecer um reino político, mas para edificar a igreja, o templo prometido. Por isso, o Messias tornou-se, para eles, um laço e uma pedra de tropeço. Eles O rejeitaram, e ainda assim Ele se tornou a “cabeça da esquina”:
“A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” (Salmo 118:22).
Essa rejeição foi o ápice da incompreensão do povo, que, sem discernimento espiritual, não reconheceu o tempo da visitação de Deus. O Messias veio, não para cumprir suas expectativas terrenas, mas para trazer redenção e estabelecer o reino eterno no coração dos homens. Primeiro Cristo teria que edificar um templo com pedras vivas e, só então, herdaria o reino prometido.
Enquanto Jesus realizava a vontade do Pai, que Ele descrevia como Sua verdadeira comida (João 4:34), seus próprios concidadãos, ao tornarem-se inimigos do Filho do Homem, contribuíram para “preparar a mesa” que seria o evento da crucificação. No entanto, ir ao Calvário fazia parte do plano redentor do Pai, transformando a cruz em uma mesa posta na presença de Seus inimigos (Salmo 23:5). Para os judeus que O rejeitaram, contudo, essa mesma mesa tornou-se um laço e armadilha (Salmo 69:22).
A mesa posta na presença dos inimigos, mencionada no Salmo 23, refere-se profeticamente ao evento da crucificação, onde os inimigos de Cristo eram seus próprios irmãos segundo a carne, os judeus que rejeitaram e entregaram o Messias.
Os profetas descreveram a condição espiritual de Israel como estando em caminhos escorregadios, onde a queda era inevitável (Salmos 35:6; Salmos 73:18; Jeremias 23:12). Isaías resumiu o julgamento divino com estas palavras:
“Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem, e se enlacem, e sejam presos.” (Isaías 28:13).
Por não darem ouvidos à voz do Senhor, que ocultou Seu rosto da casa de Israel, eles foram impedidos de entrar no repouso prometido (Salmo 95:11). Quando o Senhor se manifestou como santuário, na plenitude dos tempos, o testemunho foi selado entre os discípulos de Cristo. A lei e o testemunho, que são a essência do ministério de Cristo, tornaram-se o critério. Caso os filhos de Israel não falassem segundo as palavras que Cristo ensinou, não havia luz neles, mas apenas trevas (Isaías 8:16-20).
Jesus ensinava nas sinagogas, mas indignava-se com a dureza dos corações dos líderes religiosos (Marcos 3:5). Mesmo ao operar milagres, Ele ordenava que não espalhassem os relatos, pois não queria ser reconhecido apenas como operador de sinais ou profeta. O propósito era que o povo examinasse as Escrituras e reconhecesse, pela profecia, que Ele era o Cristo, crendo no testemunho dado por Deus acerca de Seu Filho (1 João 5:9-10).
Por não poder declarar abertamente “Eu sou o Cristo”, Jesus ensinava Sua doutrina por meio de parábolas (Marcos 4:2). Aos discípulos, explicava os mistérios do reino, mas ao povo, falava em adágios e símiles com um propósito definido:
“A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados” (Marcos 4:11-12; Mateus 13:11-12).
Mateus explica que Jesus falava em parábolas para cumprir a profecia de Isaías:
“Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos.” (Mateus 13:14-15; Isaías 6:9-10).
Essa rejeição voluntária não era novidade. Jeremias já havia declarado:
“Mas não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos; antes andaram cada um conforme o propósito do seu coração malvado.” (Jeremias 11:8).
João reforça esse ponto ao afirmar que, mesmo após tantos sinais, o povo não creu:
“Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem compreendam no coração, e se convertam, e Eu os cure.” (João 12:37-41).
O apóstolo Paulo, citando Isaías, declara:
“Porquanto o coração deste povo está endurecido, e com os ouvidos ouviram pesadamente, e fecharam os olhos; para que nunca com os olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem do coração entendam, e se convertam, e Eu os cure.” (Atos 28:26-27).
Essa dureza levou a salvação a ser proclamada aos gentios, que, ao contrário de Israel, ouviram e creram (Atos 28:28). Diante disso, Deus endureceu o coração de Israel, ou eles seguiram seus corações obstinados? As Escrituras mostram que o “endurecimento” foi consequência da incredulidade e rebeldia do povo.
A Bíblia deixa claro que Deus nunca tolhe o livre-arbítrio dos homens, inclusive dos filhos de Israel, de modo a controlar ou influenciar suas decisões. Deus, em sua imutabilidade e fidelidade, não revoga os dons que concedeu à humanidade, mesmo após a queda. Os dons concedidos por Deus à humanidade na criação, incluindo o livre-arbítrio, o domínio sobre os peixes, animais e a terra (Gênesis 1:26-28) e o conhecimento do bem e do mal adquirido simultaneamente com a queda (Gênesis 3:22), continuam sendo elementos fundamentais da natureza humana, mesmo após a entrada do pecado no mundo. (Romanos 11:29).
Para compreender melhor esses conceitos, é essencial analisar o que Deus disse por meio do profeta Malaquias:
“Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto.” (Malaquias 1:1-2).
Uma leitura moderna desses termos, amor e ódio, pode sugerir que Deus preferiu Jacó e rejeitou Esaú. No entanto, esse não é o ponto central do texto. Ao destacar que Esaú e Jacó eram irmãos, ambos descendentes de Abraão e Isaque, o profeta evidencia que, à primeira vista, ambos pareciam reunir as mesmas condições para estarem sob o abrigo da promessa feita a Abraão.
Se Esaú era filho de Abraão, não estaria ele sob o abrigo da proteção decorrente da promessa feita a Abraão? A resposta encontra-se na explicação do apóstolo Paulo: “nem todos os que são de Israel são israelitas; Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos.” (Romanos 9:6-7). Essa distinção reflete a fidelidade de Deus, que, ao delimitar a linhagem pela qual o Descendente viria, visava o cumprimento de Sua promessa. Ao transformar os montes de Esaú em desolação, Deus evidencia que a eleição divina para a linhagem do Cristo não se baseia exclusivamente na descendência física.
Embora Esaú fosse o primogênito, a primogenitura não foi confirmada no nascimento. A palavra dada a Rebeca antes mesmo de seus filhos nascerem antecipou o curso dos acontecimentos: “O maior servirá o menor.” (Gênesis 25:23). Assim, Rebeca edificou sua casa com base na palavra de Deus, assegurando que Jacó se tornasse o herdeiro da promessa.
Ismael, da mesma forma, era filho de Abraão, mas não foi incluído na linhagem da promessa. Quando Sara decidiu que o filho da escrava não herdaria com o filho dela, Isaque, Deus confirmou essa decisão, demonstrando que mesmo sendo Ismael o primogênito, ele não seria a linhagem escolhida para a vinda do Cristo, conforme foi dito: “Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Gênesis 21:12). Sara, ao deserdar Ismael, edificou sua casa e assegurou a Isaque a descendência da promessa. Embora Ismael fosse o primogênito segundo a carne, com relação a promessa Isaque era o unigênito, conforme a palavra de Deus: “Por este tempo virei, e Sara terá um filho” (Gênesis 18:10).
E por que Deus amou Jacó? Porque, apesar de ter nascido por último, segurando o calcanhar de Esaú, Jacó valorizou e buscou o direito de primogenitura, enquanto Esaú, que originalmente o detinha, desprezou-o ao trocá-lo por um prato de lentilhas (Gênesis 25:29-34). Nesse contexto, o amor de Deus significa conceder aquilo que é de direito a quem o valoriza, enquanto o ódio reflete a recusa de atribuir aquilo que não é devidamente reconhecido ou prezado.
Quando Deus cumpre graciosamente Suas promessas, como no caso da promessa feita a Abraão, vemos o amor de Deus evidenciado em Seu compromisso fiel. Ele prometeu a Abraão que sua descendência herdaria a terra de suas peregrinações e, a Davi, que seu descendente governaria todos os reinos da terra com vara de ferro. Essa fidelidade é uma manifestação da misericórdia divina, que jamais se afastará da nação de Israel, embora a mesma garantia não se estenda a indivíduos (Êxodo 6:4).
Por essa razão, Deus sempre preservará um remanescente entre os filhos de Israel, assegurando o cumprimento do juramento feito aos patriarcas. A promessa, estabelecida pela graça e pela fidelidade de Deus, é irrevogável, demonstrando Sua imutabilidade e o propósito de redimir Seu povo afim de fazer o Seu primogênito o mais elevado que os reis da terra (Salmo 89:27).
“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará. Guarda, pois, os mandamentos e os estatutos e os juízos que hoje te mando cumprir.” (Deuteronômio 7:7-11).
Nesse aspecto, o homem também pode amar e odiar a Deus. Como isso ocorre? O homem demonstra amor a Deus ao obedecer aos Seus mandamentos, enquanto manifesta ódio quando desobedece. A obediência aos mandamentos divinos resulta na misericórdia de Deus, que é a expressão de Seu amor. Por outro lado, a desobediência leva à rejeição e ao ódio divino, conforme estabelecido nas Escrituras:
“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.” (Êxodo 20:5-6).
Esse princípio, expresso em Êxodo 20, é reiterado em várias passagens bíblicas (1 Samuel 15:22; Oséias 6:6) e estabelece a regra fundamental na relação entre Deus e o homem.
Embora a misericórdia do Senhor seja contínua sobre a nação de Israel, garantindo que eles não sejam completamente consumidos (Isaías 1:9-10; Lamentações 3:22-23), isso não isenta os indivíduos de julgamento. Muitos membros da nação de Israel pereceram em razão de sua desobediência, como os seiscentos mil homens que saíram do Egito e morreram no deserto. Essa realidade enfatiza a necessidade de um coração circuncidado, isto é, submisso a Deus:
“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz.” (Deuteronômio 10:16).
A dura cerviz de Israel reflete sua recusa em ouvir e obedecer, tal como a de seus pais, que não creram no Senhor (2 Reis 17:14). Assim, a mensagem divina é clara: amar a Deus significa sujeitar-se a Ele, enquanto endurecer o coração e persistir na desobediência resulta na perda da misericórdia e na manifestação do julgamento divino.
A bem-aventurança decorrente da misericórdia de Deus está intrinsecamente ligada à obediência e ao temor ao Senhor. O temor a Deus não é apenas um sentimento de reverência, mas uma postura de submissão e obediência à Sua palavra. Por outro lado, aquele que endurece o coração e se recusa a obedecer inevitavelmente cairá no mal, como ensina a Escritura:
“Bem-aventurado o homem que continuamente teme; mas o que endurece o seu coração cairá no mal.” (Provérbios 28:14).
Dessa verdade, podemos deduzir que, para ser alvo da misericórdia de Deus, o indivíduo deve obedecê-Lo. Caso contrário, Deus, em Sua justiça, o fará perecer, independentemente de sua origem ou de pertencer a um grupo específico, como a nação de Israel. Essa realidade deixa claro que o relacionamento de Deus com os indivíduos é baseado em obediência pessoal, e não meramente em laços nacionais ou culturais.
Contudo, mesmo que Deus julgue e faça perecer aqueles que desobedecem, Seu amor pela nação de Israel permanece imutável. Esse amor é expresso em Sua fidelidade à promessa feita aos patriarcas. Assim, embora indivíduos possam ser cortados por causa de sua desobediência, Deus garante que sempre preservará um remanescente fiel para a continuidade da nação. Essa preservação é uma demonstração de que a palavra de Deus jamais será revogada e que Seu propósito soberano prevalecerá em todas as circunstâncias.
A combinação de justiça e misericórdia de Deus reflete Sua natureza perfeita: Ele é justo ao julgar os desobedientes, mas gracioso ao manter Sua fidelidade à promessa, preservando a nação e conduzindo-a ao cumprimento de Seu plano redentor.
A narrativa de Jacó e Esaú não reflete uma escolha arbitrária ou favoritismo, mas o cumprimento do propósito divino decorrente do direito de primogenitura. Deus é fiel às Suas promessas e justo em Seus julgamentos. O homem, por sua vez, tem liberdade para escolher amar ou odiar a Deus, obedecendo ou rejeitando Seus mandamentos. O amor de Deus é oferecido graciosamente, mas a resposta do homem determinará se ele desfrutará da misericórdia divina ou enfrentará Sua rejeição.
“Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos.”
O verbo grego πωρ?ω (p?ró?), traduzido como “endurecer”, remete ao verbo hebraico ?????? (shaman), que significa “engordar” ou “não ser receptivo”. Isso nos leva a perguntar: Deus realmente endureceu o coração dos filhos de Israel para que não ouvissem ou cressem (Romanos 11:7)? Ou seria o caso de Deus ter enviado, repetidamente, Seus profetas e até mesmo o Seu Filho, enquanto Israel escolheu não dar ouvidos (Hebreus 1:1; 2:1)?
O hebraico ?????? (shaman), em seu sentido básico, significa “engordar” ou “estar gordo”. Quando conjugado na forma causativa (Hifil), adquire o significado de “fazer engordar” ou “tornar algo/alguém gordo”. Em Isaías 6:10, um contexto semelhante aparece com o verbo ????????? (hakbed), também na forma causativa, indicando que o sujeito faz algo/alguém tornar-se “pesado” ou “insensível”, uma metáfora para o endurecimento espiritual.
Essa ideia está presente na maneira como Deus se refere a Israel como “Jesurum” em Deuteronômio 32. O termo, que pode ser traduzido como “amado”, “reto” ou “correto”, descreve figurativamente Israel como ovelhas que, uma vez encontradas por Deus, foram protegidas e abundantemente alimentadas:
“Lembra-te dos dias da antiguidade… Ele o achou em uma terra deserta… cercou-o, cuidou dele, guardou-o como à menina dos seus olhos… Ele o fez cavalgar sobre as alturas da terra e comer dos frutos do campo.” (Deuteronômio 32:7-14).
Contudo, essa provisão e cuidado divinos conduziram a uma consequência trágica e inusitada:
“E, engordando-se Jesurum, deu coices; engordaste-te, engrossaste-te, e de gordura te cobriste; e deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação.” (Deuteronômio 32:15).
Aqui, o “engordar” é uma metáfora para prosperidade e abundância que, em vez de gerar gratidão e obediência, levou à altivez e à rebeldia. O endurecimento de Israel, portanto, não deve ser entendido como uma imposição arbitrária de Deus, mas como uma resposta às escolhas do próprio povo.
Deus endureceu o coração de Israel? Sim, mas como isso aconteceu?
O texto de Deuteronômio 32:9-15 apresenta um retrato significativo do relacionamento de Deus com Israel. Deus é descrito como aquele que encontrou Israel em uma terra deserta, cercando-o, instruindo-o e cuidando dele como a menina dos seus olhos. Ele proporcionou abundância, elevando Israel às alturas e concedendo-lhe os melhores frutos da terra. No entanto, a resposta do povo à generosidade divina foi de rebeldia:
“E, engordando-se Jesurum, deu coices; engordaste-te, engrossaste-te, e de gordura te cobriste; e deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação.” (Deuteronômio 32:15).
Essa prosperidade concedida por Deus tornou-se a causa do endurecimento do coração de Israel. Ao invés de resultar em gratidão e obediência, a abundância gerou orgulho e uma postura de insensibilidade espiritual. Deus não lhes tolheu o livre-arbítrio, mas permitiu que experimentassem as consequências de sua altivez e ingratidão. Em essência, o endurecimento ocorreu como um resultado direto da resposta rebelde do povo às bênçãos de Deus.
O texto evidencia que, ao proteger a nação de Israel e conceder-lhes o melhor da terra, Deus os abençoou abundantemente, mas essa prosperidade acabou se tornando motivo de rebeldia. Isso é descrito como um “endurecimento” do coração no sentido de que, ao desfrutar das bênçãos divinas, Israel tornou-se orgulhoso e ingrato, esquecendo-se do Senhor que os havia exaltado. No entanto, isso não significa que Deus lhes tolheu o livre-arbítrio ou que estavam destinados a se comportar de forma rebelde.
A narrativa aponta que a responsabilidade pela rebeldia recai sobre Israel. Ao serem protegidos, criados e engrandecidos por Deus, em vez de responderem com obediência e gratidão, eles “deram coices”, ou seja, se rebelaram contra o próprio Deus que os havia sustentado. A prosperidade, que deveria levar à adoração e fidelidade, tornou-se um motivo de orgulho e afastamento.
Esse padrão de comportamento reflete a liberdade humana: mesmo diante das bênçãos divinas, Israel escolheu o caminho da desobediência. O “endurecimento” aqui não é uma imposição divina, mas o efeito da abundância divina sobre um coração que não se humilha diante de Deus. Isso ressalta a responsabilidade do homem em usar suas bênçãos para glorificar a Deus, em vez de se voltar contra Ele.
“Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra; porque o SENHOR tem falado: Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.” (Isaías 1:2-4).
Israel, ao receber as abundantes bênçãos do Senhor, passou a provocá-Lo ao ciúme, adorando outros deuses e esquecendo-se do Seu cuidado e proteção. Como resposta, o Senhor os desprezou e ocultou o Seu rosto, um ato que simboliza a retirada de Sua presença protetora. Isaías, ao falar das benignidades de Deus, enfatiza que Ele Se fez o salvador de Israel ao tomá-los como Seu povo, tratando-os como filhos legítimos (Isaías 63:8). Contudo, Israel se rebelou, e Deus, em Sua justiça, passou a pelejar contra eles.
Esse era o sinal e a maravilha já prevista na Lei: a disciplina de Deus como consequência da desobediência. Porém, mesmo diante dos juízos, Israel recusou-se a ser instruído, mantendo-se obstinado em seu caminho de rebeldia (Isaías 63:10; Deuteronômio 32:5-20).
Diante dessa realidade, Isaías, perplexo pela consequência da desobediência de Israel, questiona:
“Por que, ó SENHOR, nos fazes errar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que não te temamos? Volta, por amor dos teus servos, às tribos da tua herança.” (Isaías 63:17).
Se Deus deixou registrado que maldições alcançariam o povo como sinais e maravilhas de Sua parte caso não O servissem, poderíamos concluir que Ele estava fazendo Israel errar em Seus caminhos? Ou que endurecera os corações deles para que não obedecessem? A resposta está no propósito divino: a correção que Deus aplicava era um sinal de Seu amor e cuidado paternal. Contudo, em vez de se submeterem à disciplina e retornarem ao caminho correto, Israel endureceu ainda mais a sua cerviz, resistindo ao chamado de arrependimento.
Esse endurecimento, portanto, não foi imposto por Deus, mas foi a resposta obstinada de um povo que, mesmo advertido e corrigido, escolheu desobedecer. As maldições não eram para levar à ruína final, mas para despertar o arrependimento e restaurar a aliança, evidenciando o amor fiel de Deus, que disciplina aqueles a quem considera filhos.
“Ah SENHOR, porventura não atentam os teus olhos para a verdade? Feriste-os, e não lhes doeu; consumiste-os, e não quiseram receber a correção; endureceram as suas faces mais do que uma rocha; não quiseram voltar.” (Jeremias 5:3; 7:26; 17:23).
Eles não conseguiam enxergar o amor de Deus estampado na correção, que, na verdade, era um sinal de Seu cuidado e uma maravilha da Sua fidelidade! Assim como está escrito:
“Filho meu, não rejeites a correção do Senhor, nem te enojes da sua repreensão; porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem.” (Provérbios 3:11-12).
A disciplina de Deus era um gesto de amor paternal, mas o coração endurecido de Israel os impedia de reconhecer essa verdade. Em vez de se renderem à misericórdia divina e retornarem ao Senhor, resistiram, ignorando que a correção visava restaurá-los e reafirmar a aliança com o Deus que os amava como filhos.
O fato de Jesurum ter engordado devido ao cuidado amoroso do Senhor, tornando-se próspero e enaltecido, levou-o, paradoxalmente, à rebeldia. Em vez de reconhecer e agradecer pela bondade divina, Jesurum “deu coices”, desprezando o próprio Deus que o sustentava. Como resposta à ingratidão e idolatria de Israel, o Senhor os desprezou e escondeu o Seu rosto, retirando a Sua presença protetora.
Esse ato de ocultação não foi arbitrário, mas uma consequência do afastamento voluntário de Israel. Ao rejeitarem o Senhor e se entregarem à soberba e à idolatria, perderam o favor divino. Como está escrito:
“Com deuses estranhos o provocaram a zelos; com abominações o irritaram. Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, aos quais não temeram vossos pais. Esqueceste-te da Rocha que te gerou; e em esquecimento puseste o Deus que te formou; O que vendo o SENHOR, os desprezou, por ter sido provocado à ira contra seus filhos e suas filhas; E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade. A zelos me provocaram com aquilo que não é Deus; com as suas vaidades me provocaram à ira: portanto eu os provocarei a zelos com o que não é povo; com nação louca os despertarei à ira.” (Deuteronômio 32:16-21).
A rejeição divina era tanto um juízo quanto um chamado ao arrependimento, um apelo para que Israel reconhecesse sua dependência do Senhor e retornasse ao caminho da aliança.
O endurecimento de Israel, conforme destacado pelo apóstolo Paulo, deve ser entendido como uma consequência da persistente rebeldia do povo, mesmo diante do cuidado contínuo de Deus. Essa ideia é corroborada pela análise de várias passagens bíblicas, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.
Paulo, em Romanos 11:25, enfatiza que o endurecimento de Israel é parcial e temporário:
“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado.”
Esse endurecimento é uma manifestação da rejeição voluntária de Israel às advertências e instruções divinas. Não se trata de um decreto irrevogável da divindade, mas de uma reação ao desprezo do povo pelos sinais e chamados de Deus.
A metáfora apresentada em Ezequiel 16:4-13 ilustra de forma vívida o cuidado divino desde o nascimento de Israel como nação: Deus encontrou o povo em um estado de abandono e o exaltou, adornando-o com bênçãos espirituais e materiais. Contudo, em vez de responder com gratidão e obediência, Israel rejeitou o Senhor, o que resultou no endurecimento de seu coração.
O termo “endureceu” no contexto bíblico frequentemente funciona como um hebraísmo ou uma expressão idiomática. Ele não implica que Deus determinou de forma fatalista o estado espiritual de Israel, mas refere-se à apostasia que resulta da resistência às bênçãos e às correções divinas.
Esse uso idiomático é reforçado pela confissão registrada em Neemias 9:29; 9:16-17, onde os levitas reconhecem a soberba e a desobediência de Israel:
“E testificaste contra eles, para que voltassem para a tua lei; porém eles se houveram soberbamente, e não deram ouvidos aos teus mandamentos, mas pecaram contra os teus juízos, pelos quais o homem que os cumprir viverá; viraram o ombro, endureceram a sua cerviz, e não quiseram ouvir.”
A responsabilidade pelo endurecimento recai sobre o próprio Israel, que repetidamente escolheu ignorar a palavra de Deus.
Paulo também esclarece que o endurecimento de Israel é temporário e faz parte de um plano redentor maior. Ele explica que Israel, atualmente inimigo do evangelho por causa dos gentios, permanece amado por Deus devido à aliança com os patriarcas:
“Quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas quanto à eleição, amados por causa dos pais.” (Romanos 11:28).
Após a plenitude dos gentios, Deus cumprirá Sua promessa de salvar Israel, demonstrando Sua fidelidade e graça. O endurecimento de Israel, longe de ser um ato arbitrário de Deus, é o resultado da rejeição contínua de Sua palavra e cuidado. No entanto, esse endurecimento é temporário, servindo ao propósito de incluir os gentios no plano de salvação e, finalmente, restaurar Israel. Essa perspectiva enfatiza tanto a justiça de Deus em corrigir quanto Sua misericórdia em preservar um remanescente fiel e cumprir Suas promessas.
O endurecimento do coração de Faraó é uma questão teológica que desperta debates quanto à soberania de Deus e o livre-arbítrio humano. A análise dos textos bíblicos revela nuances que ajudam a entender esse evento à luz das Escrituras.
O termo hebraico ?????, traduzido como “endurecimento”, tem o sentido básico de “fortalecer” ou “tornar firme”. Em relação a Faraó, o verbo aparece em diferentes formas verbais, que trazem implicações distintas:
Essa alternância revela que o endurecimento de Faraó não deve ser interpretado como uma intervenção divina que anulasse ou influenciasse sua vontade, mas como uma interação entre a ordem divina e as decisões pessoais de Faraó.
Ao comissionar Moisés para libertar o povo de Israel, Deus antecipou eventos futuros, afirmando que o rei do Egito não permitiria que os israelitas percorressem três dias de caminho no deserto para sacrificar ao Senhor. Deus prometeu realizar maravilhas, ferindo a terra do Egito, e então Faraó permitiria a saída do povo (Êxodo 3:18-20).
Deus também indicou que, se os sinais iniciais realizados por Moisés não fossem suficientes para convencer o povo, haveria outros sinais mais contundentes (Êxodo 4:8-9). Contudo, Deus deixou claro que endureceria o coração de Faraó para que ele não permitisse a saída de Israel imediatamente (Êxodo 4:21).
Nas primeiras menções sobre Faraó, a narrativa evidencia sua recusa em deixar o povo partir, mesmo diante de sinais e maravilhas, mostrando sua obstinação e autonomia em suas decisões. Já na terceira abordagem, a ideia de endurecimento surge associada à realização dos sinais de Moisés no monte.
Ao retornar ao Egito, Moisés foi instruído por Deus a realizar os sinais perante Faraó, que continuaria a resistir. Apesar dos sinais, como o da vara que se transformou em serpente — posteriormente replicado pelos magos egípcios — Faraó permaneceu inflexível, ainda que a vara de Arão tenha engolido as serpentes dos magos (Êxodo 7:10-13). Esse padrão de resistência se repetiu com outras pragas, como as águas transformadas em sangue e as rãs, sendo seguido por um endurecimento progressivo do coração de Faraó, ora provocado pela própria obstinação, ora descrito como ação divina (Êxodo 7:22-23; 8:15).
Mesmo quando os magos reconheceram que os sinais de Moisés e Arão eram “o dedo de Deus”, Faraó continuou resistindo (Êxodo 8:19). Sua obstinação foi tamanha que ele tentou barganhar, permitindo sacrifícios dentro do Egito, proposta que Moisés rejeitou (Êxodo 8:25-32). Nem mesmo pragas devastadoras, como a peste nos animais e as úlceras, abalaram sua teimosia (Êxodo 9:7-12).
Na praga das saraivas, parte dos egípcios começou a dar crédito às palavras de Moisés, protegendo seus bens, mas Faraó permaneceu irredutível, mesmo após reconhecer seu erro e declarar que Deus era justo (Êxodo 9:27-35). Quando os gafanhotos devastaram o Egito, alguns servos tentaram persuadir Faraó a libertar o povo, mas ele se recusou a permitir a saída completa, insistindo em que apenas os homens poderiam partir (Êxodo 10:10-11).
Com as pragas das trevas e, finalmente, a morte dos primogênitos, Faraó foi forçado a permitir a saída dos israelitas. Contudo, mesmo após libertá-los, seu coração se endureceu novamente, levando-o a perseguir o povo. Deus, entretanto, guiou os israelitas em segurança, utilizando colunas de nuvem e fogo para protegê-los no caminho (Êxodo 13:17-22).
Ao conduzir o povo ao Mar Vermelho, Deus instruiu Moisés a acampar estrategicamente, prevendo que Faraó consideraria os israelitas perdidos e os perseguiria, o que resultaria em glória para Deus ao libertá-los de forma miraculosa (Êxodo 14:1-4). Novamente, o coração de Faraó se endureceu, levando-o a ordenar a perseguição, culminando na destruição de seus exércitos no mar (Êxodo 14:17-28).
Logo no início, Deus antecipa a Moisés que Faraó não permitiria a saída dos israelitas:
“Eu sei que o rei do Egito não vos deixará ir, se não for obrigado por mão forte. Portanto, estenderei a minha mão e ferirei o Egito com todos os meus prodígios, que farei no meio dele; depois disso, ele vos deixará ir.” (Êxodo 3:19-20).
Deus ainda declara que endureceria o coração de Faraó para não deixá-los ir (Êxodo 4:21). Esse anúncio é uma demonstração da onisciência divina, que conhece de antemão o curso dos eventos.
Por outro lado, a Bíblia também registra que Faraó, diante dos sinais e maravilhas realizados por Moisés, deliberadamente se recusou a ceder. Por exemplo:
“O coração de Faraó se endureceu, e ele não os ouviu, como o Senhor tinha dito.” (Êxodo 7:13).
Mesmo quando os magos do Egito reconheceram que os sinais eram o “dedo de Deus”, Faraó persistiu em sua teimosia:
“Mas o coração de Faraó se endureceu, e ele não os ouviu, como o Senhor tinha dito.” (Êxodo 8:19).
Essa narrativa evidencia que o endurecimento de Faraó não foi um ato unilateral de Deus para tolher sua liberdade, mas uma interação entre a determinação divina tendo por base sinais insofismável do seu poder e a obstinação humana. Os sinais e maravilhas revelaram o poder de Deus, mas também expuseram a teimosia de Faraó, que recusou ceder até ser completamente derrotado.
Em 1 Samuel 6:6, os filisteus fazem uma reflexão que ajuda a compreender o endurecimento de Faraó:
“Por que endureceríeis o vosso coração, como os egípcios e Faraó endureceram os seus corações?”
Esse versículo sugere que o endurecimento do coração de Faraó não foi uma imposição divina unilateral. Em vez disso, foi uma resposta à sua própria disposição obstinada. Deus não anulou o livre-arbítrio de Faraó, mas, ao confrontá-lo com Sua palavra e poder, permitiu que sua dureza natural se manifestasse plenamente.
O endurecimento do coração de Faraó resultou de uma interferência direta no livre-arbítrio? Certamente não! A experiência de Faraó reflete o princípio contido em Provérbios:
“O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz, de repente será destruído sem que haja remédio.” (Provérbios 29:1).
Um exemplo semelhante pode ser visto em Belsazar, filho de Nabucodonosor. Deus concedeu ao pai de Belsazar domínio sobre povos, nações e línguas, com poder de vida e morte. Contudo, Nabucodonosor, ao se exaltar e endurecer-se em soberba, foi derrubado de sua glória, sendo humilhado por Deus, que o fez pastar como os animais do campo. Apesar de conhecer o destino de seu pai, Belsazar não se humilhou, mas profanou os utensílios do templo (Daniel 5:18-23):
“Mas, quando o seu coração se exaltou, e o seu espírito se endureceu em soberba, foi derrubado do seu trono real, e passou dele a sua glória.” (Daniel 5:20).
O endurecimento do coração de Faraó pode ser comparado ao que aconteceu com Israel quando, após receber proteção e prosperidade da parte de Deus, rebelou-se contra Ele. Esse endurecimento não foi uma ação direta de Deus, mas consequência indireta de Sua bondade e da resposta soberba do homem. De forma semelhante, ao realizar sinais e maravilhas no Egito e permitir que os magos de Faraó replicassem alguns deles, Deus, indiretamente, contribuiu para o endurecimento de Faraó. As pragas, em vez de levarem ao arrependimento, reforçaram sua obstinação.
O endurecimento de Faraó, portanto, não pode ser interpretado como um fatalismo à maneira dos mitos gregos. Além disso, esse episódio não trata da salvação pessoal de Faraó, mas de seu papel em tornar o nome de Deus conhecido em toda a terra, fosse ele permitindo ou resistindo à saída de Israel.
Lutero, ao abordar o endurecimento de Faraó, afirmou:
“Quando Deus disse: ‘Endurecerei o coração de Faraó’, Ele estava dizendo: ‘Farei com que o coração do Faraó se endureça.’ Deus, com a mais absoluta certeza, sabia e, com a mais absoluta certeza, declarou que o coração do Faraó se endureceria.” (Capítulo 3 de Nascido Escravo).
Contudo, a própria Escritura registra em várias ocasiões:
“Vendo, pois, Faraó que havia descanso, endureceu o seu coração, e não os ouviu, como o Senhor tinha dito.” (Êxodo 8:15).
No hebraico, o verbo ?????? (kabed), no Qal, indica que o coração de Faraó “se tornou pesado” e, portanto, resistente. Já o verbo ????? (chazaq), no Hifil, apresenta um sentido causativo, sugerindo que Deus endureceu o coração de Faraó. Mesmo assim, a gramática não sustenta uma posição doutrinária de que Deus obscureceu a mente de Faraó ou interferiu diretamente em sua psique.


